por Scott F. Aikin e Robert B. Talisse

Atenção: texto traduzido e adaptado pelo editor do Blog Esclarecimento Filosófico, Júlio Cesar da Silva. O artigo original se encontra no final do texto.

Uma maneira de pensar o argumento é pensar nele como uma luta. De fato, é a interpretação padrão de como as coisas chegaram a um certo ponto, como quando alguém relata que teve uma discussão com um vizinho ou colega. Se é uma discussão, isso significa que o ponto central ficou de lado.

Na lógica, porém, os argumentos se distinguem de brigas e querelas. Os argumentos, como coleções de reivindicações, têm uma característica funcional de serem divisíveis em premissas e conclusões (com a primeira apoiando a segunda), e têm características funcionais consequentes de serem trocas de razões para identificar resultados aceitáveis ​​para todos os envolvidos. Portanto, os argumentos desempenham papéis pragmáticos e epistêmicos – eles visam resolver desacordos e identificar o que é verdade. A esperança é que, com bons argumentos, tenhamos algo positivo em todos os elementos envolvidos.

Se os argumentos tem esse cerne de aspirantes a resolução e de busca da verdade, há algum espaço para adversidade neles? Há duas razões para pensar que sim. Um deles tem a ver com o pano de fundo pragmático da argumentação – se ela estiver a serviço de estabelecer uma resolução, os lados envolvidos na resolucão devem ter uma representação justa e completa no processo. Caso contrário, é resolução apenas no nome. Isso parece claro.

A segunda razão tem a ver com a forma como as razões funcionam em geral.

Considere o pensamento de que as razões para algo desempenham regularmente um papel de classificação em um intervalo especifico de alternativas. Por exemplo, a evidência de que sua amiga está tomando chá gelado no almoço é que ela tem um copo alto de líquido marrom claro à sua frente. Mas isso ocorre porque essa evidência distingue chá gelado de água, refrigerante ou café. Mas observe que ela não o distingue do Long Island Iced Tea, que se parece com chá gelado, mas é uma bebida de almoço muito diferente. Você precisaria de outras evidências para diferenciar os dois. Portanto, a evidência de como a bebida se parece é evidência apenas contra uma certa classe de possibilidades, mas não é evidência quando há outras possibilidades a serem consideradas.

Considere outro caso, mas desta vez com razões práticas. Você está deliberando sobre onde ir jantar – é tarde e você está com fome. O curry que fica no bairro é preferível ao curry que fica mais longe. Mas se você estiver deliberando entre o curry no bairro e o hambúrguer também no bairro, o fato de eles estarem no bairro não importa no final das contas. Portanto, o fato de o restaurante estar no bairro é um motivo para distinguir um lugar do outro, mas não é um motivo per si. É assim que as razões funcionam.

Esse papel contrastante das razões parece bastante intuitivo e engloba todos os tipos de outros dividendos quando se trata de explicar como as razões podem ter a relevância que deveriam ter em alguns casos, mas não em outros. Mas aqui, estamos preocupados apenas com seus dividendos no debate sobre adversidade. O pensamento é simplesmente que as razões devem ter força contrastiva, e essa força contrastiva ocorre apenas quando você está escolhendo entre opções contrárias. A adversidade estrutural está escrita na natureza das razões, como elas funcionam e como as implantamos. Você não precisa de uma pessoa que ocupe a posição contrária, mas apenas de pensar qual é essa posição e quais motivos podem ser a favor ou contra.

Pense na maneira como realmente dominamos os conceitos e as idéias. Vemos debates sobre eles, ou aprendemos sobre suas histórias e vemos seus desenvolvimentos e quais razões os refinaram até a forma que têm agora. Esse é um trabalho contrastante, o trabalho da adversidade estrutural que refina qual é o conceito; e assim deve ser, dado o papel que está desempenhando na classificação de uma gama de possibilidades em relação a outras.

Há muita contrariedade a essa ideia de que o argumento é intrinsecamente contraditório e vale a pena pensar em duas das formas mais influentes que esse pensamento assume. A primeira é que, se o argumento é contraditório, não há motivo para distinguir o argumento das meras brigas que pensávamos serem diferentes. A segunda é que, se pensarmos em argumento como contraditório, esse pensamento terá conseqüências ruins para a maneira como argumentamos. Essas são críticas distintas, mas claramente relacionadas, e as abordaremos em ordem.

A primeira objeção é que, se o argumento é como uma batalha, então, como tudo é válido no amor e na guerra, tudo é válido no argumento. Assim, os casos de xingamentos, exclusões e má conduta geral não são, em princípio, criticáveis ​​sob essa perspectiva. A adversidade no argumento é o problema, e identificá-lo como o núcleo do argumento torna-se um problema prático.

Nossa resposta é dizer que o argumento que é intrinsecamente contraditório não significa dizer que o contraditório é tudo o que há para argumentar; apenas que esse argumento deve possuir uma vantagem antagônica de classificar pontos de vista contrários. Observe que nada sobre essa regra para tratar as razões requer (ou até encoraja) que a classificação seja feita com ódio ou zombaria. De fato, o cerne é que a própria adversidade ajuda a identificar quando as razões apresentadas são realmente justificativas, porque é nesse papel contrastante que a força da razão é revelada. Sem os contrastes, não está claro como as razões escolhem algo. E, de fato, as regras da troca contraditória nos permitem identificar quando há erros no desempenho – assim como nas competições esportivas têm faltas, o mesmo vale para os confrontos argumentativos.

A segunda objeção é que, se acharmos que esse argumento é contraditório, nos prepararemos para um desempenho inadequado durante o debate. A nosso ver, essa objeção é uma instância do que chamamos de versão do Problema da Coruja de Minerva para reflexão filosófica – que os refinamentos de nossos conceitos criam novos perigos em nossa implantação desses mesmos conceitos. Nesse sentido, achamos que a objeção está quase certa – o foco na delimitação contraditória da argumentação pode distorcer a maneira como argumentamos e, portanto, produzir um desempenho inadequado. Portanto, pensar que o argumento é sobre vencer pode nos render a tentação de diminuir a oposição ou recusar-se a ouvir seus argumentos.

Nossa resposta é que é aqui que as ferramentas propostas por aqueles que pensam que esse argumento não é contraditório são úteis. Aqueles que propuseram outras metáforas para a argumentação – criação de celeiros, interrogatório mútuo, investigação cooperativa – nos fornecem maneiras de nos focarmos novamente na prática compartilhada da argumentação e no valor que a nossa deliberação agrega. Assim como o foco em como e por que alguém é amigo de outra pessoa pode atenuar a tentação de ampliar uma discordância, o mesmo vale para o argumento. É importante lembrar-nos de que existem mercadorias no depósito além de serem reconhecidas como corretas ou passiveis de ganhar uma troca específica. Compartilhamos uma cultura, temos um relacionamento e queremos nos ver como justos e de mente aberta. Essas coisas são importantes, e algumas metáforas da argumentação são melhores em nos ajudar a focar nossa atenção nas coisas que nos impedem de estruturar a argumentação. Mas essas ferramentas têm seu uso apenas porque evitam os focos que a adversidade intrínseca do argumento nos impõe.

O resultado é que pensamos que o argumento é realmente intrinsecamente contraditório, mas é bom não focar nesse recurso, mas em outras maneiras pelas quais o argumento pode ser cooperativo ou nos relacionamentos que mantemos no contexto da discordância. Essa é uma mentalidade dupla que pode parecer impossível, mas não é mais difícil de manter do que a mentalidade dupla que devemos ter quando apreciamos a ‘tensão criativa’ entre artistas ou excelentes atletas competidores. E é semelhante à consideração que temos com nossos próprios pensamentos quando pensamos que as normas do pensamento crítico devem ser aplicadas a eles – pensamos que nossas crenças são verdadeiras, caso contrário não acreditaríamos nelas, mas também devemos pensar que não temos todas as crenças verdadeiras, pois precisamos pensar criticamente sobre como as formamos. O bom do argumento, evidentemente, é que terceirizamos essa reflexão crítica para nossos críticos. E a esse respeito, devemos agradecer a eles por serem nossos adversários críticos.

Fonte original: https://www.3quarksdaily.com/3quarksdaily/2020/01/must-argument-be-adversarial.html

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s