por Júlio Cesar da Silva, editor do Blog Esclarecimento Filosófico

Um dos conceitos mais difíceis de definir é o de filosofo, talvez, não seja mais difícil do que o de definir o próprio ato de filosofar. A diversidade de temas onde a filosofia pode “deitar” sua atenção, e o seu longo período histórico que estrutura toda uma tradição multifacetada, nos indicam que a tentativa de definição é árdua. Se não, fartada a um fracasso. A tradição filosófica segue muito bem sem precisar de definições bem definitivas.

Por outro lado, no senso comum, estamos cercados de filósofos, pensadores, eruditos capazes de corromper ou valorizar toda rica produção textual filosofica de mais de dois mil anos. E como critica-los se, constantemente, não se pode de fato delimitar o que o papel do filosofo e da filosofia? Na falta de definições, tudo parece permitido. Sei o que nada sei, diz o jargão, facilmente repetido por qualquer um que conheça algo de filosofia.

No Brasil, em especial nos últimos meses, a turbulenta crise política e econômica abriu brecha para a ascensão de um discurso conservador cujo principal baluarte de referência é um senhor radicado nos EUA; escritor e colunista de palavras afiadas e sedutoras, que também possui a alcunha de filosofo. Olavo de Carvalho não é uma figura nova, já escreveu para alguns jornais de grande circulação, possui livros publicados e ministra cursos on line.

Seria possível analisar a postura filosófica de Olavo, sem recair na polarização que surgiu juntamente com a crise política e econômica? Ou seja, ainda que pessoalmente não concorde com as afirmações do guru de Richmond, haveria como construir uma justificação coerente para balizar nossas análises se Olavo é ou não é um filosofo? Minha resposta é sim. O que não significa construir uma resposta que seja classifica com isenta de polarização.

O início de minha exposição traz consigo o cerne do meu argumento, e da própria origem da filosofia: estaremos recorrentemente entre o senso comum e uma tradição que compreende um corpo de conhecimentos. A filosofia possui de fato uma variedade de temas e subtemas, e uma discussão multifacetada representada não somente pelas suas figuras mais notáveis, tidos filósofos e filosofas, como também aspectos culturais de seus mais de dois mil anos de história. Logo, além de uma busca racional e argumentativa para superar a mera opinião do senso comum, a empreitada filosófica se circunscreveria nas características linguísticas e culturais de cada época. Outro elemento é determinante: o diálogo entre as gerações de filósofos e filosofas, o que significa o fortalecimento de um conjunto de produção textual, contida em uma tradição onde vocabulários e estratégias se consolidaram para cada nova geração interessada em participar do debate.

Com o surgimento das universidades na idade média, do ensino calcado em algum escopo e método, as áreas do conhecimento ganharam uma delimitação muitas vezes especifica. A tradição de conhecimentos se afasta do senso comum, em direção ao rito que permeia a construção de uma profissão de excelência. Não posso deixar de lembrar que Platão e Aristóteles possuíam suas escolas e, ao que tudo indica, abordagens comuns e diferentes do ato de filosofia. Nenhum dos filósofos da antiguidade chegou a realizar uma graduação em filosofia, essa imagem do estudo formal e do diplomado em filosofia surge posteriormente.

Tudo isso nos conduz para a modernidade e contemporaneidade. Onde a obtenção de um conhecimento rigorosamente reunido exige muitas vezes o contato com os especialistas reunidos em universidades e centros de pesquisa espalhados pelo mundo. O próprio papel da universidade é o de guardiã do conhecimento, e, também, produção de novos conhecimentos. É evidente que nem todas possuem um grau de excelência comum, ou mesmo diversidade de produção de conhecimento.

A necessidade de responder a questões políticas, e de regulamentação da prestação de serviços por determinados profissionais, conduziu a criação de órgãos de classe e delimitações legais sobre a execução ou não de uma determinada profissão. É o caso da medicina, do direito, psicologia e outras formações profissionais. É necessário ressaltar que nem sempre foi assim; a regulamentação de uma profissão não significa a sua conceitualização. O que de fato ocorre, como era o caso com o conhecimento das guildas dos artesões no renascimento, é que, delimitação legal de quem pode ou não exercer a profissão conduz a um controle maior do conhecimento e do método disponível ao aprendizado.

Pois bem, a especialização do conhecimento, o volume de informação, o método de lidar com a informação e a tradição construída em volta da área do conhecimento são os elementos que estão contidos no conjunto de características de um corpo de conhecimento na contemporaneidade. Esse conjunto requer muito esforço para ser delimitado, classificado e apresentado a cada geração. Geralmente, os pesquisadores são aqueles que melhor alcançam resultados nesta empreitada. O renome dos pesquisadores não é somente com seus experimentos, em uma pesquisa empírica, mas também em revisões de literatura na pesquisa teórica.

A filosofia não é diferente, ainda que, seus métodos não sejam sempre os mesmos ao longo de sua tradição, como escrevi anteriormente, a linguagem, a cultura e a sociedade se alteram ao longo dos anos, e tais alterações refletem no ato de filosofar. Isso não significa que não ocorra um conjunto de elementos que permitam unificar o corpo de conhecimento da tradição filosófica. O texto argumentativo, o texto de exegese, os problemas característicos e o vocabulário são elementos comuns e delimitadores. Não podemos esquecer que a filosofia é “mãe” de boa parte das ciências, e, ao longo de sua história gerou frutos importantes para diversas áreas. Um texto publicado aqui no esclarecimento traz exemplos palpáveis disso.

A história da filosofia é também a história de como o ser humano buscou pensar a realidade, incluído a si mesmo e suas definições. Mais do que emitir opiniões ou apresentar determinada erudição, a filosofia tem um interesse complexo pelo conhecimento na forma de sua tradição. É tão complexa quando o grupo de procedimentos que define o ato de exercer a profissão de médico ou de físico.

Portanto, ainda que existam bons textos de divulgação da filosofia, como existem os de divulgação da ciência como um todo, não é possível realizar uma apresentação profunda da filosofia nessas edições de primeira entrada. Assim como leigos se colocam a discutir as questões aparentemente “místicas” da física quântica, ou as terapêuticas alternativas da medicina xamânica, discussões calorosas sobre a filosofia no senso comum muitas vezes arranham apenas a superfície da tradição. E, mesmo que a filosofia não receba a mesma atenção dada a uma sociedade médica na defesa de uma homologação legal da profissão, o corpo de conhecimento construído ao longo dos séculos é semelhante.

Isso me conduz a considerar que existem, para os corpos de conhecimentos, duas estruturações. Primeira, formalizada pelos centros universitários e de pesquisa diante de uma determinada tradição histórica e metodológica, e uma segunda, (in)formalizada pelo senso comum a partir de uma percepção superficial da primeira. Pela complexidade que a primeira produz, é dada a segunda uma atenção maior, o que é compreensivo, uma vez que a complexidade dificilmente será dominada sem uma certa dedicação. Se já nos é exigente dominar uma determinada área do conhecimento para a execução de nossas atividades cotidianas, imagine o estudo de outra área.

Uma observação ainda é requerida. É necessário para conhecer a fundo um corpo de conhecimento, apenas o estudo nas universidades e centro de pesquisa? Evidentemente, por causa do sentido de necessário, a resposta será não. Uma autodidata pode obter certos conhecimentos aprofundados pela leitura da produção histórica dos conhecimentos que estão hoje acessíveis em bibliotecas e no mundo virtual. Entretanto, além de ser um caso extremamente raro, será necessário em algum momento a validação desse conhecimento por outros estudiosos. Em determinadas áreas, será necessário inclusive provas de titulação e prática.

Ainda se impõe dois tipos de conhecimento, o formal e aprofundado da tradição do corpo de conhecimento, e o superficial direcionado ao senso comum. O segundo, quando determinado por uma intenção de divulgação cientifica, é benéfico por aproximar o leigo do que ele desconhece. Se o conhecimento não chegar ao leigo, é possível que o mesmo nunca saiba como julga-lo nas propostas de práticas de políticas públicas. Já o primeiro é onde o conhecimento profundo recebe manutenção, garantindo seu desenvolvimento e disponibilidade as gerações futuras na forma de pesquisa e desenvolvimento.

Consequentemente, na contemporaneidade, podemos perceber o filosofo no sentido estrito, relacionado com a tradição e o corpo de conhecimento aprofundado, e o filosofo no sentido do senso comum, relacionado de modo superficial ao corpo de conhecimento. No primeiro caso, o termo se aplica em relação a produção de uma tese inovadora, ou seja, a contribuição para um novo elemento para o escopo do conhecimento da tradição. No segundo caso, o termo se aplicada de modo livre, como sinônimo daquele ou daquela que conhece muito, escreve bem ou se comunica bem diante de uma diversidade de assuntos.

A real necessidade do segundo tipo é de fato questionável, sua informalidade não colabora para que de fato tenhamos plenas condições de reconhecer um trabalho de qualidade. Muitas vezes, o filosofo do senso comum se perde em meio as superficialidades, extrapolando o cerne dos esforços reais do pensamento filosófico. Não o faz sempre de modo consciente, muitas vezes acredita que de fato possui um conhecimento aprofundado, quando na verdade produz um conjunto robusto de incoerências. Nossa comparação, evidentemente, se dá pela tradição.

Já entre os filósofos no sentido estrito, as divergências de fato existem, entretanto, ocorrem mediante de um diálogo com a tradição, e de certa profundidade, inclusive a metodológica. Quando Nietzsche ou Sartre são analisados, é necessário perceber o quanto estão imersos na tradição e o quanto se esforçaram por uma tese inédita, mesmo que um não possua a formação formal, ou seja, a graduação em filosofia. Nenhum deles se apresenta sem alguma formação formal e sem conhecimento da tradição.

É necessário portanto concluir que não é a graduação ou a denominação do senso comum que nos permite encontrar o trabalho filosófico que produz bons frutos para a tradição da filosofia. É necessário um “mergulho” na tradição, nos problemas filosóficos e em sua tradição metodológica. A tese inédita será o diferencial para a obtenção do título no sentido definitivo. Isso não impede que tenhamos a profissão de professor de filosofia, pesquisador em filosofia, ambas derivadas do processo de formação em uma graduação superior e colaboradores para que o corpo de conhecimento seja preservado e desenvolvido.

Para além do cenário descrito anteriormente, nos resta o papel do filosofo menor ou informal, uma figura muito semelhante ao colunista de um jornal ou revista. Eliminemos de vez o titulo de filosofo. Nos resta um indivíduo de opinião, mas, nem sempre comprometido com o rigor do corpo do conhecimento filosófico que compõe a tradição até o atual momento. Escreve bem, possui técnicas de retorica inatas ou desenvolvidas para conquistar a atenção, muitas vezes, se destacando mais do que o conteúdo informacional a ser transmitido. Olavo de Carvalho se encontra nessa categoria. Alguns links da referência baixo permitem ao leitor identificar como o guru erra no uso da filosofia. Isso não exclui, evidentemente, a percepção de outras qualidades.

Referências

  1. https://oglobo.globo.com/sociedade/olavo-de-carvalho-esta-errado-nao-entendeu-kant-dizem-tres-nomes-de-destaque-da-academia-brasileira-23440419
  2. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/sobre-o-que-fala-olavo-de-carvalho.shtml
  3. https://blogdaboitempo.com.br/2019/06/06/a-covardia-de-olavo-de-carvalho/
  4. http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/585253-as-paixoes-reprimidas-de-uma-massa-o-academicismo-e-a-emergencia-da-extrema-direita-entrevista-especial-com-fabricio-pontin
  5. Compêndio de filosofia por E. P. Tsui-James (Autor), Editora: Edições Loyola; Edição: 4th
  6. A História da Filosofia – Will Durante – Os Pensadores – Capa Marrom
  7. Fundamentos da Filosofia. História e Grandes Temas – Volume Único
    por Gilberto Cotrim e Jaime Rodrigues, editora Saraiva Didático

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