Paul Franceschi escreveu o livro “An Introduction to Analytic Philosophy” como um guia para aqueles que desejam conhecer o estilo de fazer filosofia da vertente conhecida como Filosofia Analítica. Para o autor é um estilo marcado pela precisão e clarificação dos problemas produzindo uma apresentação que não sofra com ambiguidade. Trata-se de um olhar sobre os argumentos dos filósofos, mais do que uma exegese do texto original. Nas palavras do autor, logo na introdução:

A abordagem adotada ao longo deste livro consistirá, portanto, na descrição de um grande número de problemas filosóficos contemporâneos, ilustrando assim a metodologia usada na filosofia analítica, que consiste em descrever com precisão – muitas vezes passo a passo – uma série de problemas para os quais existe , no momento, nenhuma solução consensual.

Como editor deste blog, sempre busco aproximar a filosofia no seu sentido estrito e lato do amplo público por meio de textos e traduções que sempre visam um primeiro contato com os temas em questão. Considero a abordagem de Franceschi uma excelente oportunidade de apresentar um exemplo, e consequentemente a metodologia, de como a filosofia analítica trabalha com os problemas da filosofia. Abaixo a tradução e adaptação do capítulo 26 do “An Introduction to Analytic Philosophy” onde é apresentado o argumento do Cogito de Descartes.

O argumento do Cogito é atribuído a Descartes.

Ele pode ser formulado de forma muito breve e simples: “Penso, logo existo”. No entanto, para entender o escopo exato do cogito cartesiano, é necessário aprofundar sua estrutura e contexto.

A formulação original do Cogito pode ser encontrada no Discurso do Método (Parte IV):

Não sei se vos devo falar das primeiras meditações que aqui fiz, pois elas são tão metafísicas e tão pouco comuns que talvez não sejam do agrado de todos. No entanto, a fim de que se possa julgar se os fundamentos que tomei são bastante firmes, acho-me, de certa forma, obrigado a falar delas. Há muito tempo eu notara que, quanto aos costumes, por vezes é necessário seguir, como se fossem indubitáveis, opiniões que sabemos serem muito incertas, como já foi dito acima (na Terceira parte); mas, como então desejava ocupar-me somente da procura da verdade, pensei que precisava fazer exatamente o contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se depois disso não restaria em minha crença alguma coisa que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nosso sentidos às vezes nos enganam, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos levam a imaginar. E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo sobre os mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, julgando que era tão sujeito ao erro quanto qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões que antes tomara como demonstrações. E, finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos quando acordados também nos podem ocorrer quando dormimos, sem que nenhum seja então verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas que haviam entrado em meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas logo depois atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade – penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de abalar, julguei que podia admiti-la sem escrúpulos como o primeiro princípio da filosofia que buscava.

(Trecho do Discurso do Método, de René Descartes, da editora wmf martinsfontes, tradução de Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo, 2014, p.57-59)

É tentador, nesta fase, considerar que o argumento de Cogito pode ser formulado muito brevemente como: “Penso, logo existo ” e que sua estrutura pode ser descrita da seguinte maneira:

(1) eu penso [premissa]

(2) se eu penso, logo existo [de (1)]

(3) ∴ Eu existo [de (1), (2)]

No entanto, esta é uma interpretação do argumento de Descartes que se mostra restritiva. Parece preferível descrever o cogito cartesiano de uma maneira que melhor capte sua essência, levando em conta o contexto de dúvida em que ocorre o próprio argumento do Cogito, pois o Cogito é um argumento que visa demonstrar a existência do eu, tendo em conta a possibilidade deste eu estar se auto-enganado sobre os seus pensamentos ou percepções.

Descartes chega ao ponto de considerar o caso em que o objeto de seus próprios pensamentos está errado, isto é, ele está enganado sobre a existência de coisas sensíveis que o cercam, por exemplo, porque ele está sonhando. Mas mesmo nesse caso, a conclusão de que ele existe também se impõe a Descartes.

A força do argumento reside no fato de que, mesmo que eu admita que estou atualmente enganado por meus próprios pensamentos, porque o objeto deles é falso, segue-se que eu existo pelo simples fato de que meus pensamentos são errôneos. Portanto, o que o argumento de Cogito mostra, em última instância, é que não posso ser enganado sobre o simples fato de que eu existo, mesmo se os meus pensamentos são enganosos ou não.

Assim, o argumento Cogito pode ser apresentado com mais precisão da seguinte forma:

(4) o objeto dos meus pensamentos é verdadeiro ou falso [dicotomia]

(5) se o objeto dos meus pensamentos é verdadeiro [hipótese 1]

(6) então eu penso [conseqüência 1]

(7) se o objeto dos meus pensamentos é falso [hipótese 2]

(8) então eu penso [conseqüência 2]

(9) Eu penso [de (4), (6), (8)]

(10) se eu penso então eu existo [de (9)]

(11) ∴ Eu existo [de (9), (10)]

O argumento do Cogito é uma aplicação da dúvida metodológica implementada por Descartes. Ele se compromete então a duvidar da realidade de todo o conhecimento que ele previamente adquiriu e que ele sempre considerou como certo, não porque ele lança sérias dúvidas sobre sua existência, mas porque tal método lhe permite alcançar, de maneira segura alguns conhecimento tidos como certos. O argumento de Cogito é, portanto, uma ilustração dessa dúvida metodológica, que permite a Descartes, nesse contexto, obter um conhecimento firme e estável, que corresponde à certeza de sua própria existência.

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