por Júlio Cesar da Silva

O caminho trilhado por um aluno de graduação em filosofia ou por um estudante curioso informal é muitas vezes semelhante: uma leitura das obras mais conhecidas e a preocupação de compreender bem a estrutura do pensamento do filósofo em questão. Este caminho pode ou não ser auxiliado por comentadores que “facilitam” a assimilação de  conceitos mais complexos ou passagens obscuras.

Cabe ao graduando em filosofia, principalmente no Brasil, desenvolver-se como um professor de filosofia (um generalista conhecedor das principais obras filosóficas em seus textos originais) ou/e um pesquisador (cuja pesquisa poderá torna-lo um especialista em um determinado filósofo ou tema, ou ainda, um excelente comentador daquele filósofo estudado em profundidade). São caminhos necessários, não somente para que a filosofia possa estar acessível a futuros estudantes tanto no ensino fundamento e médio, como também, possa haver um contínuo aprofundamento para os estudantes de graduação. Contudo, me parece que estas não são as únicas vias de desenvolvimento da filosofia.

Parece faltar aqui uma terceira via: a de ser um pensador confrontando e respondendo aos temas filosóficos que ainda estejam em aberto e carecendo de possíveis soluções ou novas abordagens. Esta via não estaria fechada para os que se dedicam a pesquisa ou ao ensino, mas é cada vez mais rara se pensarmos nas principais teses defendidas e artigos desenvolvidos dentro dos cursos universitários, basta para tanto uma leitura das publicações organizadas pela Anpof e pelas revistas das principais universidades. Neste blog temos um volume expressivo de links para consulta.

O próprio modelo de ensino de filosofia, principalmente na graduação de algumas universidades, mas não somente ali, estaria orientado às duas vias originalmente abordadas anteriormente. Creio ser importante resaltar, como já comentei, que não estou propondo o fim do modelo tradicional de ensino e estudo em filosofia ou mesmo defendendo a inutilidade do comentador de textos filosóficos. O que almejo é a defesa de que se faz necessário também cultivar um modelo que comporte a terceira via. E por quais motivos?

Alberto Muñhoz faz uma pertinente distinção entre história da filosofia e história das idéias: “a historia da filosofia se distingue da história das idéias porque esta examina o eixo social e histórico de condicionamento, enquanto aquela focaliza o condicionamento argumentativo das teses de um ator”. Essa passagem provocativa nos conduz a refletir como que os grandes textos filosóficos surgiram, bem como, na grande quantidade de discursos heterogêneos entre si ao longo de fragmentos, textos escolásticos, aforismos, notas de aula, tratados sistemáticos e poemas.

Parece que os autores não estavam na sua maior parte do tempo tateando o escuro por meio de citações aos textos da tradição, tão pouco esperando que suas aulas tivessem um espaço para que idéias pudessem surgir de encontro aos problemas vigentes da atualidade. Os grandes autores estavam em diversas posições, em diversos cenários e momentos, buscando pensar a tradição com um intuito de discordar ou de expressar algo a mais. Queriam argumentar em vez de simplesmente reproduzir. O conhecimento adquirido não conduziu a passividade ou a admiração silenciosa perpetua. E o que seria da filosofia sem este desejo expressar a própria opinião ou interpretação?

Camus faz uma importante colocação em seus Carnet II: Javier 1942 –  Mars 1951 (tradução de Paulo Jonas de Lima Paiva,  da edição Gallimard, 1943, p.88): “Nós lemos mais do que refletimos. Não temos filosofia, apenas comentários. É o que diz Gilson ao afirmar que à idade dos filósofos que se ocupavam de filosofia sucedeu a idade dos professores de filosofia que se ocupam de filósofos.”

Nesta tensão, também se junta Gonçalo Palácios, que reconhece a importância dos comentadores mas, se opõe à exclusividade da análise, da exegese filosófica e do comentário puro em detrimento da problematização, da argumentação e da busca autônoma de soluções. Ele, por fim, complementa “não é por termos lido que podemos ser filósofos, mas por estarmos acostumados a pensar criticamente”. Não seria viável ou coerente que houvessem de exigir um determinado volume de leituras mínimas para que alguém pudesse se tornar apto a ser oficialmente um filosofo ou que tivesse que falar e escrever em alemão ou grego antigo.

Despertar nos estudantes o prazer de pensar é essencial. Ao contrário de outras disciplinas como a física ou medicina o ensino da filosofia não se baseia em um corpo de conhecimento rígido e sua aplicação técnica no mundo. O que a filosofia requer de seus estudantes é acima de tudo um desejo pelo pensamento critico em contraposição a assimilação de grandes quantidades de informação. Ler filosofia é essencial para que o próprio leitor possa filosofar diante do que lhe é apresentado. Por isso, o ensino de filosofia não poderia envolver um estudante passivo, excluído do próprio processo de reflexão. Apreender filosofia é aprender a questionar em conjunto com o professor, o autor do texto e consigo mesmo.

Já seria este, portanto, o sinal verde para que o calouro em filosofia já se reconheça como um pensador original? Seria então o momento de esquecer a abordagem histórica da filosofia em prol de uma abordagem exclusivamente temática e contemporânea? Para ambas, a minha resposta é não.

Conhecer os pensadores de outrora nos permite, muitas vezes, caminhar pelo desenvolvimento de um tema e descobrir o que já fora escrito e o que já fora erroneamente atribuído a um pensador a respeito de um determinado problema. Se dedicamos um certo tempo a ler um certo volume de comentários “filosóficos” que são postados em redes sociais já teremos certeza do quanto a compreensão superficial faz mal ao corpo de conhecimento da filosofia. Por outro lado, é notável como certos campos da filosofia, como a ética, revisita antigos pensadores a luz das preocupações contemporâneas. Para maiores detalhes, procure por Martha Nussbaum e suas leituras de Aristóteles.

É necessário portando que se evite creditar a um certo solipsismo, todos os elementos necessários para ser um pensador original ou para confrontar problemas filosóficos em aberto. É preciso que se receba o “fogo da filosofia” de uma pessoa que já a tenha adquirido por meio de alguma das duas vias originalmente citadas e que esta possa queimar em suas próprias idéias.

Para um aluno do ensino fundamental e médio, é esperado que alcance os principais autores e com eles dialogue sobre temas que estejam ainda em aberto. Para um graduando, seria interessante que os dois primeiros anos de curso permitam cruzar as quatro grandes fases da filosofia: antiga, medieval, moderna e contemporânea e obtenha também uma forte orientação para a escrita e para a lógica (em um texto anterior a este comento sobre o vinculo intimo da filosofia e da lógica).

Deste ponto em diante, ao mesmo tempo que determinados assuntos como epistemologia, ética, metafísica e etc são aprofundados, o aluno adentrar ao oficio de ser desafiado a tomar posição entre argumentações rivais e, adiante, escolher apresentar as suas próprias elocubrações. Uma formação que contemple a possibilidade de compreender melhor a virtude filosófica (descrita em outro texto aqui por mim publicado) e a importância de refletir com base em conceitos.

Estou ciente de que existe muitas outras questões a serem avaliadas quando se faz uma proposta de mudança. Questões intrínsecas as formas de pesquisa, as agencias de fomento, as exigências do MEC e ao corpo docente. Mudanças nem sempre estão facilmente a disposição, principalmente quando o assunto é a formação científica e profissional. Isso não significa que não se possa abrir espaço ao debate, para formação de grupos de estudos, bem mais flexíveis e capazes de implementar a terceira via. O importante é garantir que os alunos possam se envolver com a filosofia em todas as suas vias, possibilitando que pensadores originais possam surgir por aqui.

Referências

Muñhoz, A.A. “O Aristóteles de Porchat: dogmatismo, ceticismo e história dos sistemas filosóficos.” In: Smith, P.J. e Wrigley, M.B. O filósofo e sua história: uma homenagem a Oswaldo Porchart, Campinas, Unicamp/CLE, 2003, p.165.

Palácios, G. A. De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Goiânia, Editora UFG, 2002, p.11 e 12.

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