por Júlio Cesar da Silva

Dentre a crescente variedade de séries disponíveis no Netflix, duas chamam a atenção quando o assunto é filosofia, The Good Place e Merlí. A primeira aposta em uma sitcom de humor e a segunda em um drama com toques de comédia. Ambas estão fazendo um excelente serviço a favor da filosofia. Neste artigo abordaremos The Good Place deixando Merlí para um segundo artigo, permitindo assim destacar o que cada uma possui de melhor a respeito da filosofia.

Muito do sucesso de The Good Place se deve a excelente química do elenco e ter sido criada por Michael Schur, que tem The Office, Parks and Recreation e Brooklyn Nine-Nine em seu currículo. Deste conjunto temos uma série inteligente, com reviravoltas impressionantes e muita boa filosofia, em especial o campo da ética. Trata-se de uma comédia sobre a vida após a morte, com referências regulares a Immanuel Kant, David Hume e Aristóteles. Mas esteja preparado para ver “participações” filosóficas como  Todd May e seu livro Death (The Art of Living) ou mesmo o famoso problema do carrinho na linha do trem de Philippa Foot.

Qual é então a premissa de The Good Place? A egoísta e imoral Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) morre e é enviada por acidente para o Lugar Bom (Good Place, onde somente as pessoas boas devem ser levadas), mas torna-se determinada a se tornar uma boa pessoa para ser digna de ali permanecer. Eleanor contará com a ajuda do professor de ética senegalence e alma gêmea Chidi Anagonye (William Jackson Harper) que possui um histórico não muito bom com os amigos devido a profissão e a sua dificuldade em escolher. Existem vários The Good Place, o de Eleanor foi criado pelo arquiteto Michael (Ted Danson) uma figura cósmica muito similar a um anjo e que esta ansioso diante do seu primeiro projeto. Complementam o elenco principal, a socialeit inglesa Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e seu par o monge com voto de silêncio Jianyu (Manny Jacinto), e a IA assistente de Michael Janet (D’Arcy Carden).

Antes de escrever sobre a parte filosófica, é interessante destacar como a série escapa de certos clichês ao oferecer uma protagonista mulher, um elenco multi étnico e piadas que não fazem uso de elementos sexistas. Existe um cuidado de se sustentar nos diálogos e em dilemas muito bem escolhidos para cada um do elenco. Conforme foi dito anteriormente, a série esta sempre preparada para surpreender quando menos se espera. Não há caricaturas exageradas como ocorre em séries como The Big Bang Theory.

E quanto a parte filosofica? Outro ponto certeiro. Parece que algum pós graduando em ética e filosofia se juntou aos produtores e deixou livre todo o seu humor sagaz. As aulas de Chidi para ajudar Eleanor a se tornar uma pessoa melhor começam com os clássicos: Sócrates, Platão e especialmente Aristóteles. Os ensinamentos de Aristóteles constituíram a base da filosofia moderna, particularmente no desenvolvimento da prática de aplicar regras da lógica como método de chegar à verdade. Mas isso ajuda para que a exploração de suas reflexões teleológicas seja salpicada de piadas como por exemplo, o questionamento “Quem morreu e deixou Aristóteles encarregado da ética?” feito por Eleanor, ao qual o exasperado Chidi responde: “Platão!”. 

Existe uma precisão nas citações e nas referências. A passagem, ainda que curta, pelo Eu de Hume e o seu Tratado Sobre a Natureza humana demonstra todo o cuidado com a temática complexa que envolve a filosofia e que pode também afastar os que estejam acostumados apenas as frases de efeito. Hume tem um destaque especial na historia da filosofia, ao menos aos olhos deste que escreve, pela clareza que conduz a a transformação dos temas rumo a modernidade. Para o filosofo era necessário uma abordagem cientifica do pensamento humano, numa escrita que abre caminho para as abordagens da filosofia analítica e sua busca pelo esclarecimento conceitual.

Outro que dá as caras é o utilitarismo, a abordagem filosófica que a maioria se sente atraída na universidade, pensando “ah, esse é o que faz sentido!”, até o instante em que  tudo é derrubado quando surgem os dilemas. A idéia básica é que um ato moral é aquele que concede o maior bem para o maior número de pessoas. Parece inteligente e certo, até começarem a fazer perguntas sobre consequências não desejadas e sobre a justiça natural. O problema de Philippa Foot surge de forma “prática” em um dos melhores episódios da segunda temporada. Jeremy Bentham, nome famoso do utilitarismo aparece discretamente no letreiro de um filme: Bend It Like Bentham. A série portando não trata de uma exposição didática e enfadonha da filosofia, bem como se sente segura para brincar com todos os elementos em jogo.

Temos também a ética deontológica, preocupada com a moralidade das ações de alguém, com as várias escolas de pensamento, cada uma buscando estabelecer conjuntos de regras que, se obedecidas, produzirão comportamentos éticos. Essas regras normalmente dizem respeito ao nosso dever um para o outro. Kant, tão amado por Chidi, era especialmente grande nisso. Em um episódio de muitas escolhas o tema aparece de forma sutil e empolgante. Nada é forçado ou exagerado. As aulas e a evolução de Eleanor cativam a torcida de quem assiste. E não se engane, as contradições de cada teoria são também abordadas. Por exemplo, o questionário que Michael usa para avaliar se alguém é uma pessoa boa ou uma pessoa ruim é preenchido com perguntas baseadas em regras – por exemplo, “Você já pagou para ouvir músicas criadas pelo grupo de rock funk californiano do the Red Hot Chili Peppers? ”

Não poderia faltar alguma abordagem ao existencialismo. Uma teoria que procura estabelecer um conjunto de regras de comportamento para a ética prática, mas assume como ponto de partida o indivíduo como agente moral. Rejeita a noção de algum ideal moral nebuloso, pedindo, em vez disso, que o indivíduo aja com “autenticidade” moral. Basicamente, é uma filosofia muitas vezes considerada sob medida para adolescentes.  Um dos grandes momentos desta teoria é quando temos um episódio inteiro que se baseia na noção de liberdade de Søren Kierkegaard que vem somente através da fé completa em si mesmo e na vida (embora ele tenha expressado mais como estar com Deus), mas também porque Chidi revela que ele está escrevendo um rap filosófico para ajudar Michael a entender a filosofia ética.

The Good Place é uma grata surpresa, merece todas as atenções. Esperamos que este texto permita ampliar um pouco mais as experiência de assistir a série. Se você ainda não conhece, corra para a Netflix o quanto antes. Algumas partes deste texto foram inspiradas (e reescritas) no texto de The Good Place: how a sitcom made philosophy seem cool de Andrew P. Street para o The Guardian.

 

 

 

 

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