Por Júlio Cesar da Silva

A filosofia enquanto um ramo do conhecimento humano sempre atraiu olhares curiosos, produziu nomes famosos, frases de efeitos, e, em alguns casos, chacota. Poucas vezes foi realmente compreendida. Alguns já disseram que a filosofia cedeu seu lugar para as ciências, não sendo mais necessária. Já outros consideram a filosofia uma coleção de frases de auto ajuda para animar palestras. Os próprios alunos de graduação e professores possuem certo receio em conceitualizar exatamente qual é o aspecto do conhecimento que interessa a filosofia. A final de contas, qual é a área de conhecimento abarcada pela filosofia e qual a sua diferença para as ciências tradicionais da contemporaneidade? O que aprendemos ao estudar filosofia?

Quando questionado a este respeito, sempre digo que a melhor forma de compreender o esforço dos filósofos é compreender a pergunta filosófica. Pois, inclusive nas ciências, a pesquisa se inicia, geralmente, com um questionamento. É a pergunta que guiara a metodologia pela qual queremos garantir que o conhecimento seja alcançado. Colocado desta forma, devemos retornar aos gregos para compreender o intuito da pergunta.

No diálogo Platônico de Laques, Sócrates solicita ao renomado general que dá nome ao dialogo que defina a coragem, e, como ocorre em outros diálogos, o interlocutor tentará exemplificar o que seria a coragem sendo rebatido em todas as tentativas por novas e embaraçosas perguntas. Sócrates demonstra que a pergunta não pode ser respondida com uma ação corajosa qualquer, mas, diz ele, “Diga-me o que, estando em tudo isso, é o mesmo” (191e). Dito de outra maneira, para o filósofo, somente o que nunca muda é passível de ciência, ultrapassando por sua vez a multiplicidade de particulares [1].

E é exatamente este o ponto de estudo da filosofia. A filosofia, não somente incentiva-nos, como também capacita-nos a explorar o “quadro geral que está por trás das particularidades da situação” [2], examinando as ideias e os princípios que sustentam tal caso. Busca-se cuidadosamente identificar e pensar nossas mais simples ideias e teorias – aquelas que sustentam toda a busca pelo conhecimento que fizemos em outras áreas. O filósofo contemporâneo Simon Blackburn utiliza o termo engenharia conceitual para este esforço da filosofia [3]. São exemplos de perguntas filosóficas:

  • O que existe?
  • O que pode ser conhecido?
  • Como se deve viver?
  • O que é um bom raciocínio?

Portando, um filósofo quando pensa o mundo, ele esta pensando nas ideias mais gerais, concentrando-se em obter uma compreensão melhor das questões abstratas que atribuam certo sentido a determinas partes ou aspectos do mundo. Deve-se evitar a distração causada pelos exemplos e pelas ilustrações, concentrando-se, novamente, nas ideias abstratas subjacentes. “Em geral, a Filosofia amplia nossa compreensão não por ampliar nosso conhecimento, mas por ampliar aquilo que sabemos sobre o que fazemos e conhecemos”[2]. Por isso a filosofia pode ser também filosofia da matemática, das ciências, etc. Um exemplo de conceito inacabado que provoca certas confusões entre o senso comum e a ciência é o do tempo.[4].

Podemos dizer que o estudo da filosofia nos conduz a desenvolver uma Virtude Filosófica, a qual envolve uma habilidade para revelar e examinar hipóteses ocultas; de detectar confusões conceituais e esclarecê-las; revelar e resolver contradições, e assim sucessivamente. Escrever filosoficamente é portanto usar a palavra escrita para expressar ideias claras e com lógica, demonstrando novos conceitos e as relações entre eles de maneira criativa e precisa. Este esforço é metodologicamente levado a cabo por meio de argumentos, os quais são fundamentais na atividade do filósofo. 

Um aluno que venha a cursar filosofia ou realizar pesquisas em filosofia nos atuais cursos de graduação nem sempre deverá produzir trabalhos visando esclarecer aspectos conceituais gerais inéditos ou em aberto. A pesquisa poderá envolver a apresentação do esforço já realizado por outro filosofo ou mesmo comparar o trabalho de mais de um filosofo. Mesmo nestes casos, o processo de compreender o pensamento de outro filosofo nos permite filosofar sobre o que esta sendo apresentado.

Uma ultima observação. Para os que já possuem experiência com o estudo da filosofia , ou seja, já tiveram contato com os textos de diversos filósofos de diversas épocas, o meu ponto de vista é muitas vezes chamado de analítico ou, pertencente a uma corrente da filosofia analítica. Para filósofos de outras correntes, uma engenharia conceitual soa um tanto quanto reducionista do que de fato seria mergulhar no pensamento filosófico de uma época e de um determinado filósofo.

Em minha defesa tenho a dizer que de forma alguma desejo reduzir os diversos modelos de compreensão do texto filosófico, nem mesmo dizer qual é o definitivo, qual seria o correto, o melhor, e etc; mas ressaltar que, ao longo de sua historia, a filosofia sempre foi marcada por um interesse argumentativo a respeito dos aspectos mais gerais da realidade e este é o ponto comum, independente da forma de expressar o argumento ou provocar a reflexão.

Pelo fato da Filosofia somente em pequena medida tratar da transmissão do conhecimento, devemos percebe-la como tendo uma ênfase no processo, mais do que em um simples produto.[2]. Filosofar nos permite compreender melhor as bases do que chamamos de conhecimento, as quais muitas vezes não são evidentes ou que acabam caindo em contradições quando testadas; além disso, ela nos preparar para lidar com complexidade, algo inerente ao mundo que vivemos e, também, as diversas áreas cientificas.

Referências

[1] Roberto Bolzani Filho, texto de introdução de A República de Platão, Editora Martins Fontes, 2014.

[2] Blackburn, Simon (1999), Think: A compelling Introduction to Philosophy. Oxford

[3] Saunders e outros. Como estudar filosofia, Editora artmed, 2007

[4] Cientistas fazem o tempo correr ao contrário em laboratório: https://super.abril.com.br/ciencia/cientistas-fazem-o-tempo-correr-ao-contrario-em-laboratorio/

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