Por Júlio Cesar da Silva

Black Mirror é uma série exibida pela Netflix e que, recentemente, lançou sua quarta temporada. Conhecida por abordar a relação do ser humano com a tecnologia por um viés critico e irônico, a quarta temporada destaca-se por amadurecer a critica através da exposição de uma certa dubiedade. Um episódio em especial, o ultimo, chamado Black Museum, escrito por Charlie Brooker, com partes adaptado de Pain Addict, história escrita por Penn Jillette, e dirigido por Colm McCarthy, chamou a minha atenção. Para o leitor que ainda não assistiu ao episódio, recomendo que o faça antes de concluir a leitura deste artigo.

Séries como Black Mirror não escapam de serem consideradas como filosóficas. O motivo, suponho, seja o teor critico dos episódios, responsável por propor ao telespectador algum tipo de reflexão. Nas redes sociais são muitos os posts comentando algum episódio ou alguns dos dilemas que surgem ao longo das temporadas. E, de fato, são muitos: relação humana com a inteligência artificial, papel da consciência, vigilância exarcebada, exposição exagerada da vida privada, etc. Ainda que Black Mirror fale de um futuro próximo, as discussões são relativamente contemporâneas.

Seria, portando, o objetivo principal da série nos conduzir a pensar sobre seus dilemas? E nos estamos realmente pensando? Ou, trata-se de mais um produto comercial televisivo cujo furor se diluirá como ocorreu com outras séries e filmes? Depende da série ou do público o ato de pensar e agir a respeito dos dilemas?

O que me chamou a atenção ao tentar responder estas perguntas foi uma passagem dos comentários de Lucas Angioni ao segundo livro da Física de Aristóteles ((Física I e II, Aristóteles ; Tradutor: Lucas Angioni, UNICAMP 2009)), mais precisamente as passagens 194a 27-33. Os comentários são em suma a respeito do conceito de “telos”, traduzido por alguns como “a finalidade”; o “telos” da medicina seria a cura ou restituição da saúde do enfermo. Reproduzo abaixo alguns trechos que estão nas paginas 240-241.

“Nas comparações entre técnica e natureza, frequentemente sucede que uma mesma e única coisa é ao mesmo tempo meta visada pela intervenção e o acabamento que resulta dessa intervenção – por exemplo, a saúde, a casa, etc. A forma da saúde, como meta, é o principio do raciocínio pelo qual o médico remonta às condições necessárias (cf. Metafísica 1032b 6-21); é também o término do processo de intervenção médica, mas é sobre tudo, um todo acabado(…). Aristóteles elucida que a noção de telos que ele propõe neste contexto se delimita pela conjunção de três critérios: (a) telos deve ser um ponto extremo, no qual se finda um processo; (b) telos deve ser aquilo em vista de que o processo ocorre, isto é, o princípio que preside a concatenação do processo que resulta em sua realização; (c) telos deve ser dotado de perfeição intrínseca(…)”

Concordando (e, de certa forma, extrapolando) com o comentário de Angioni, sou conduzido a questionar qual o ponto extremo a produção de Black Mirror denota. Em seguida, verificar se este ponto extremo de fato representa o processo narrativo apresentado ao longo de toda a temporada. Por fim, questionar se de fato este ponto extremo alcança o melhor do que se tinha em vista deste o inicio. Como a série apresenta seis episódios cujas historias são independentes, excetuando o último, Black Museum, cujo roteiro possui elementos de outros anteriores, foi uma escolha obvia considerar este ultimo episódio como aquele que deveria passar pelo crivo do telos.

O episódio em questão conta a historia da visita de uma personagem, Nish, ao museu. Nele são apresentados diversos objetos que possuem uma historia típica de Black Mirror por trás de si, ou seja, são objetos que aparecem em episódios anteriores e carregam consigo elementos do dilema apresentado nas respectivas historias. Uma parte substancial dos objetos apresentados possui um ponto de confluência que é o personagem Rolo Haynes (o dono do Museum). A cada objeto e historia percebemos que a confluência se constrói na imoralidade de Haynes; sua coleção objetiva nenhuma reflexão, sua meta é recuperar e, se possível, extrapolar o investimento financeiro. Nenhum dilema moral para com a situação do ser humano é capaz de conduzir Haynes a refletir nos seus atos, nem mesmo quando a sua atração principal serve de inspiração ao que existe de pior na sociedade: neonazistas, membros da KKK, etc.

Olhando para o publico consumidor, eu observo uma tendência comum de comportamento em relação a esta, e também, as demais séries: maratonar. Colecionar o máximo de historias e experiências. Ocupar o tempo com inúmeros episódios, compartilhando posteriormente nas redes sociais as experiências pessoais. Se a serie impressiona, se um publico se torna fã, o próximo passo é consumir o máximo de cada temporada. Neste sentido, vejo que Black Museum possui um alerta que não se limita apenas a historia interna, existe um relação direta com o este habito do publico: o público fã se apropria, coleciona, mas será que consegue ir para além do comportamento de consumo passivo ou momentâneo? A relação publico e Haynes me parece pertinente.

O museu tem como fim o dinheiro almejado por Haynes, não importa a que custo e nem quem quer que esteja pagando. Seu desejo é o que importa, e, ele é um homem que não tem limites para continuar lucrando. Consumir a série, colecionar a experiência para depois conta-la apenas pela diversão é construir seu próprio Black Museum. O tempo com certeza será inclemente, limpado espaço na memória para outras series e experiências. Fãs e Haynes podem então se aproximarem de um estado onde o motivo por trás do que se coleciona seja tão distante do que cada objeto significa.

Black Museum é, ao meu ver, o ápice dos episódios já apresentados. Nele a série alerta que seus dilemas não devem ser simplesmente exibidos e assistidos. Mesmo a crítica pode torna-se um hábito de consumo sem reflexão, apenas uma diversão aos sentidos. A grande crítica se faz presente na capacidade humana de não questionar o que simplesmente toma por hábito. E o hábito esta sujeito aos nossos desejos mais egoístas.

É evidente que o trabalho deste que escreve seria considerado por alguns mais simples se somente pudesse apontar ao leitor e fã da série esta análise. Bem como, tal análise, pode estar muito além do que propõe os criadores da série e a própria Netflix. Excluindo-me do esforço de apresentar alguma proposta positiva ao fato descrito, aproveitando apenas para colocar lenha no fogo. Este fato não de todo falso, mas requer que possamos pensar o que significa refletir.

Refletir nos exige, segundo o tema aqui abordado, considerar a relevância de um dilema, bem como emitir uma opinião a este respeito. Em seguida, se faz necessário ponderar nossos hábitos em relação ao dilema em questão, pois, é parte das contradições do ser humano se sensibilizar por um fato, ao mesmo tempo que se defende opiniões que são, no mínimo, colaboradoras para com o fato em questão.

A disposição para refletir deve levar em consideração o esmiuçar de como o dilema aparece ao nosso comportamento diário. Nenhuma ponderação, contudo, mudará em absoluto quem somos, casos ocorrem quando a experiência é mais próxima da nossa realidade ou dito de outra maneira, quando nos envolvemos neste dilema a ponto de nos colocarmos em risco. Estou propondo algo mais modesto: onde Black Mirror se encontra com a minha vida diária? Se a resposta for apenas na tela da TV, então você tem um Black Museum em construção.

 

Um comentário em “Filosofando sobre Black Mirror

  1. Assisti poucos episódios de Black Mirror. Sempre me sinto um pouco esgotada após ver um. Acho que evito programas que me façam ter medo da realidade a minha volta… Covardia à parte, é uma série fantástica pretendo assistir mais, nem que seja aos poucos.

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