Por Júlio Cesar da Silva
com base na palestra ministrada pelo Professor Doutor Ernesto Perini, professor da graduação e pós graduação em Filosofia da UFMG, na disciplina de Seminários em 2017.2

Em tempo de Fake News é cada vez mais oneroso discernir entre o que é verdadeiro e o que é pura enganação. Estamos mais conectados e ainda mais soterrados por um enorme volume de informações que se revelam, muitas vezes, como sendo inúteis. De programas maliciosos a intrigas políticas, passando por fofocas sobre famosos e boatos maldosos sobre conhecidos próximos é possível encontrar todo tipo de mentira cujo intuito é prejudicar o espaço publico conquistado pela rede de computadores.

Poderíamos questionar qual é o preço que se paga por ter acesso a um ambiente tão livre e ao mesmo tempo tão pernicioso? Como separar o joio do trigo? A quem interessa promover tão grande volume de mentiras?

Um ponto em especial chama a atenção, o efeito que a duvida parece provocar no espaço publico. Uma vez que a verdade é tão difícil de ser encontrada, ter o “pé atrás” com tudo pode conduzir a um ceticismo ainda mais perigoso do que as próprias noticias falsas. Trata-se de um uso da duvida com intuito de corroer as instituições que geralmente deviam ser vistas como de confiança. Trata-se de um problema de confiança e portando um portando epistemológico recorrente na filosofia contemporânea.

Os historiadores da ciência Naomi Oreskes and Erik M. Conway, também autores do livro “Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming” denunciam como a duvida é utilizada para criar controvérsias e ceticismo a respeito de temas como o aquecimento global, a indústria do tabaco, a chuva acida e o buraco na camada de ozônio. A duvida é uma moeda empregada para enfraquecer as pesquisas cientificas consolidadas nos últimos anos e favorecer industrias que não se comprometem com os malefícios que seus produtos podem causar ao indivíduo e a sociedade. “O cigarro causa câncer? Não é bem assim”.

Sabemos que a duvida é crucial para as ciências, para o pensamento critico e filosófico, ao mesmo tempo, ela também torna os estudos científicos vulnerais. Contudo, também é prato cheio para que se passe a duvidar dos efeitos do aquecimento global, de que a Terra seja plana ou que se deva vacinar contra doenças. Tais problemas tornam-se problemas de saúde publica e podem comprometer o futuro da humanidade.

Sabemos que a especialização cientifica conduziu a um cenário que é acompanhado e compreendido por poucos. Assuntos específicos são cobertos de uma linguagem técnica que dificilmente pode ser assimilada pelo senso comum. Entretanto, em determinadas áreas, são os especialistas os que mais possuem dados, informações e métodos que garantem testar e validar hipóteses. Por isso é importante compreender o papel da confiança em organizações que se dedicam a décadas a pesquisa cientifica e reconhecer o peso da opinião de especialistas e dos consensos que surgem dos debates entre eles. O espaço publico (seja ou não virtual) não deve ser utilizado para vitrine da duvida sem que antes seja compreendido o que hoje os pesquisadores sabem, concordam e discordam.

Não é simples ler estas palavras. O sentimento de impotência diante dos especialistas torna o Fake News muito mais convidativo. Em muitas situações, iremos desejar que o mundo seja simplesmente como acreditamos. Isso, por outro lado, nem sempre é o caso. O filosofo John R. Searle possui uma série de escritos a respeito da Intencionalidade ou seja, a propriedade da mente humana (ou os estados mentais são capazes) de representar objetos e estados de coisas do mundo. A natureza dos estados intencionais é evidenciada dizendo que estes representam objetos e estados de coisas do mundo. A relação que os seres humanos estabelecem com o mundo real se deve, em parte, à essa capacidade. A intencionalidade funciona capacitando os seres humanos a lidar com o mundo. Para explicar um pouco mais deste pensamento farei uma adaptação e simplificação dos conceitos apresentados por Rodrigo Canal (COFIL-UFSJ) em seu artigo “A estrutura dos estados intencionais na teoria da intencionalidade de Searle: breve introdução“.

Todo estado intencional possui uma “direção de ajuste” ou de “adequação”. A direção de ajuste dos estados intencionais possui uma estrita relação com as condições de satisfação dos estados intencionais e com o fato de o mundo existir de forma independente. Esta noção evidencia a capacidade da mente de estabelecer relações com o mundo real, pois, a intencionalidade consiste precisamente em relacionar o organismo (homem ou animal) ao mundo. A direção de ajuste ou de adequação que os estados intencionais possuem podem ser do tipo: “Mente-Mundo”, “Mundo-Mente”e a direção de ajuste “Nula”.

A direção de ajuste mente-mundo refere-se ao fato de os estados intencionais se adequarem ou se ajustarem ao mundo, pois representamos como que as coisas sejam no mundo. Crenças e experiências perceptivas são desse tipo, pois possuem a direção de ajuste “mente-mundo”, isto é, para que o conteúdo intencional seja satisfeito a mente deve se ajustar a como o mundo é, como as coisas são (por isso podem ser verdadeiras ou falsas).

Já a direção de ajuste mundo-mente quer dizer que o mundo deve corresponder aos estados intencionais, pois o representamos o mundo como queremos. Em sua abordagem desejos e intenções são os que possuem a direção de ajuste “mundo-mente”, provocam uma mudança no mundo e não dependem de serem verdadeiros ou falsos, nós representamos o mundo como gostaríamos que fosse.

Os casos de “direção de ajuste nula” são casos em que alguns estados intencionais já pressupõem que o conteúdo proposicional está satisfeito. Exemplos disso são a ofensa, um pedido de desculpas, estar contente ou arrependido, embora em todos os casos existam, como já se falou, um conteúdo proposicional que pode ou não ser satisfeito.

Portanto, diante das informações que recebemos a respeito dos fatos do mundo, é importante eleger um método que suporte a nossa confiança. Este não pode ser tentadoramente como queremos, mas, que possua alguma base onde possamos compreender melhor o que de fato ocorre na realidade. Este compromisso com o que é de fato, nos dias atuais, se encontrar vinculado a pesquisa de cunho estritamente cientifica. A ciência não será o método definitivo, mas, dentre todos, é o menos pior. O debate deve se dá, principalmente, em casos de grande divergência entre pesquisadores e estudiosos, como é o caso da economia. Em outras situações, como as pesquisas em medicina, divergências pequenas não devem receber uma exposição que suponha que sejam de extrema relevância.

Referências

 

 

 

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